Laurita Ortega Mari: primeira prefeita depois da redemocratização do Brasil
Matéria publicada no Jornal Diário de S.Paulo, de 09/10/1963
Reportagem de Moacyr Jorge e fotos de Orlando Clemente
D. Laurita Mari, em 1959, um ano e meio antes das eleições fez a experiência. Candidatou-se à Prefeitura. Do resultado dependeria uma tomada de decisão futura. Feita a apuração, depois de uma campanha sem comícios, sem discursos fantasiosos, d. Laurita perdeu por pequena margem de votos. Cinqüenta e dois sufrágios foi a diferença do prefeito eleito naquele ano. Em segundo lugar, deixou na rabeira mais quatro candidatos ao mesmo posto. A eleição de 1959 foi uma espécie de termômetro para a campanha eleitoral de 1963. O seu prestigio estava mais do que testado.
Laurita Ortega Mari: uma mulher a frente do seu tempo
Neste ano, o Partido Social Progressista, levou-a novamente à disputa eleitoral. Registrou o seu nome como candidata à Prefeitura outra vez. Foi um tiro certo. Ganhou com sobras. Com mais de 800 votos de diferença.
Foto: Arquivo do Portal O Taboanense

Laurita Ortega Mari durante discurso. Atrás, assessorando a prefeita, o jovem Armando Andrade
Qual o segredo da vitória ? Como conseguiu convencer a maioria dos eleitores? D. Laurita Mari, a primeira prefeita mulher em São Paulo por eleição direta desde 1946 responde: – "Não fiz um único discurso. Não participei de um comício sequer". Mas, como? Não trabalhou para eleger-se? Não saberia falar em público?
D. Laurita sabe. Fala até muito bem. É inteligente, humilde, com raciocínio rápido. Mas, tem muito mais que isso: um grande coração, é sensível às dores e sofrimentos dos seus semelhantes. Sofre com os que sofrem, sorri com os que estão felizes, nunca deixou de estender a mão aos que buscavam uma ajuda econômica ou uma palavra de ânimo.
Carioca, de Copacabana, d. Laurita Mari casou-se com Francisco Mari. Um casamento feliz, de 29 anos de harmonia e compreensão. Mas, nem tudo foi "azul e rosa". Houve os momentos difíceis. Dificílimos até… que obrigou o casal a deixar uma casa no Jardim Europa e procurar viver mais modestamente, numa chácara em Taboão da Serra.
Os revezes não levou o casal ao desânimo. E, na chácara recomeçaram a vida, com muita luta, com muita dedicação ao trabalho, sem descuidar dos seus deveres de amor fraternal à pobreza e a humildes. Esse foi o segredo dos vinte anos de residência em Taboão da Serra. Esse foi o prêmio da mulher carioca de Copacabana nas eleições que realizada no domingo último naquele município vizinho de São Paulo.
Meu cabo eleitoral nº 1
O Sr. Francisco Mari é o dono do Matadouro Avícola de Taboão da Serra. Mata em média 22.000 aves por mês para grandes hotéis e restaurantes de alto prestígio em São Paulo. Ele foi chamado ao telefone. Era de um hotel aqui próximo da Biblioteca Municipal:
– "Olha, mandei muitos frangos, temos falta de galinhas. Você vai ver que coisa "fina" eu mandei hoje. Dá até para fazer canja tanta é a gordura".
E D. Laurita ouvia o telefone e comentou:
– "Meu marido foi o cabo eleitoral número um. Trabalhou bastante para que eu tivesse essa vitória".
Ela também ajuda na matança de aves e trabalha bastante para atender as encomendas que são feitas por telefone. Aliás, D. Laurita, em brincadeira, dizia ao marido:
– "Agora nós vamos ter que contratar uma telefonista. Este telefone não nos dá mais tranqüilidade".
Quatro peruas em assistência
D. Laurita, que foi eleita prefeita em Taboão da Serra, diz que as quatro peruas do Matadouro Avícola também são utilizadas no transporte de pessoas pobres ou no caso de acidentes para atendimento rápido dos acidentados. O seu programa na Prefeitura de Taboão da Serra será:
1º – Educação – Criação de cursos noturnos de Alfabetização, Escola de Artesanato, auxílio ao estudante pobre, merenda escola; 2º – Saúde – pronto socorro, ampliação do Posto de Puericultura, saneamento dos córregos e água potável (encanada); 3º – Assistência Social – Construção da Casa da Criança, semi-internado onde ficarão as crianças durante todo o dia para que as mães possam trabalhar, Parques Infantis, Assistência à Maternidade (já foi lançada a pedra fundamental com a presença de d. Leonor Mendes de Barros); 4º – Jardim Público, Cemitério, recapeamento e nivelamento das ruas, asfaltamento das principais vias, luz elétrica para os bairros, melhoria da condução, serviço de esgoto, arborização das avenidas e ruas.
Não quer os subsídios
A renda da Prefeitura de Taboão da Serra é de 120 milhões por ano e o prefeito tem subsídios de 100.000 cruzeiros mensais. D. Laurita esclareceu:
– "Não vou receber meus subsídios. Vou doar os meus subsídios todos os quatro anos que eu estiver na Prefeitura. Com esse dinheiro e a ajuda do senhor Fritz, da Empreza Colonizadora e com a colaboração de outras pessoas amigas, vou desenvolver uma grande obra de Assistência Social. Contarei também com a ajuda da minha particular amiga, d. Leonor Mendes de Barros, que muito já tem feito pelos munícipes de Taboão da Serra"