Coordenadora dos Direitos da Mulher fala da atuação da entidade em Taboão
Nas últimas semanas, dois crimes bárbaros contra mulheres ganharam repercussão nacional. A modelo Eliza Samudio e a advogada Mércia Nakashima, ambas assassinadas, são apenas dois casos em uma estatística horripilante e sombria. Só no primeiro semestre de 2010, 76 mulheres foram mortas por amantes, namorados ou maridos.
Em Taboão da Serra, a Coordenadoria dos Direitos da Mulher, criada em 2005 pelo prefeito Evilásio Farias, tem profissionais das áreas jurídica e psicológica que dão um atendimento às mulheres em caso de abusos, xingamentos ou agressões físicas.
Em entrevista exclusiva ao Portal Taboanense, a advogada Maria Amélia Santos Alencar, coordenadora do órgão, fala do trabalho realizado na cidade.
O que faz a Coordenadoria dos Direitos da Mulher?
A Coordenadoria dos Direitos da Mulher é um organismo governamental com as atribuições de elaborar, implementar e fiscalizar ações voltadas a garantia dos direitos da mulher. Uma dessas políticas foi a implantação do Centro de Atendimento a Mulher em Situação de Violência, onde são acolhidas por Assistente Social e Psicóloga.

Dra. Maria Amélia, coordenadora dos Direitos das Mulheres na cidadeNesse Centro a mulher recebe orientação jurídica, participa de terapia individual e em grupo, visando o fortalecimento da auto estima e sua independência. A Coordenadoria acompanha os processos da Lei Maria da Penha, provocando o Judiciário para a concessão das Medidas Protetivas.
O que é violência doméstica e sexual?
Violência doméstica, é qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial. Violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso de força.
E a Lei Maria da Penha, a senhora poderia explicar como ela funciona?
A Lei Maria da Penha veio para promover uma real mudança nos valores sociais e dar um BASTA a violência contra a mulher, violência essa, banalizada durante séculos e aceita pela sociedade, pois no Brasil, a cada 15 segundos uma mulher é espancada, segundo a Fundação Perseu Abramo.
Como a Lei Maria da Penha vem sendo aplicada no município?
No município a Lei Maria da Penha vem sendo aplicada de forma muito lenta, talvez pela falta de estrutura do judiciário e por resistência de alguns atores no desenvolvimento do seu papel. Resistência essa, fundada em uma cultura arcaica que naturaliza a violência contra a mulher e a coloca sempre em posição inferior ao homem.
Necessário se faz a implantação com urgência do Juizado de Violência Doméstica, com promotores, juízes e advogados específicos para atender a grande demanda e agilizar os processos, do contrário, o judiciário vai ficar superlotado de processos se arrastando por três anos ou mais sem nenhuma solução, o que leva a mulher desistir do processo devido sua morosidade.
Porque isso acontece?
Um outro fator que dificulta a aplicação da Lei é a falta de advogado para dar assistência jurídica à vitima e viabilizar o andamento dos processos. A justiça só se faz com a presença do advogado, é por meio dele que o cidadão fala com o Juiz. Tem muitos casos em que a mulher sofre risco de morte e por uma questão subjetiva do juízo as Medidas Protetivas são indeferidas e a mulher fica sem defesa, não tem quem questione ao juiz o motivo do indeferimento. E ainda, com a atuação do advogado poderia se evitar o arquivamento de vários processos fundados em falta de prova, em que a parte sequer foi ouvida em juízo, pela falta de estrutura do judiciário, que não dispõe de mecanismos suficientes para contatar a vítima.
Mas ter um advogado não é um direito garantido?
Os artigos 27 e 28 da Lei Maria da Penha garante à mulher o direito a um advogado desde a sede policial até o fim do processo, e não é isso o que acontece, os processos são arquivados as medidas protetivas indeferidas e a mulher não toma conhecimento, porque não tem advogado. Tais fatos demonstram total descaso ao sofrimento da mulher e violação dos seus direitos.
Estamos acompanhando um caso em que a mulher sofreu agressões físicas, ameaça de morte e injuria, e o processo foi arquivado em março/10 por falta de prova. E em abril o agressor, ex -marido da vitima cumpriu com as ameaças, invadiu a casa e desferiu contra ela vários golpes de faca e socos, e só não a matou porque foi impedido pelos vizinhos. Veja, se o judiciário tivesse analisado melhor o processo anterior, conversado com a vítima e com o agressor, esse crime poderia ter sido evitado. Os agressores de mulheres só cometem esses crimes porque têm certeza que ficarão impunes.
O que fazer para evitar situações como essa?
O Estado tem que reverter essa situação com investimentos para o pleno funcionamento da rede de atendimento à mulher, com capacitação e sensibilização de todos os profissionais, para garantir um atendimento digno e a segurança das mulheres que querem romper a relação de violência. Nos últimos meses temos acompanhado pela imprensa o noticiário de violência contra mulheres, que chocou o Pais, o caso da Dra Mercia Nakashima e o da Elisa, namorada do goleiro Bruno.
O que me causa espanto é a forma como a mídia e a sociedade se comporta diante de tamanhas atrocidades, por um lado, a noticia tem que ser passada a qualquer custo, visando tão somente o ibope e não o combate ao crime e por outro, a sociedade ansiosa a espera de mais tragédias que cause comoção. A mídia cumpriu o seu papel de noticiar, a sociedade de receber e não se preocupam em por um fim a essa violência, simplesmente esquecem até surgirem outras vítimas.
É hora de dar um basta a violência contra a mulher! A sociedade precisa reagir e fazer com que o Estado saia dessa inércia e cumpra o seu papel. É preciso fazer campanhas permanentes de enfrentamento a violência contra a mulher, envolvendo todos os segmentos da sociedade. Aqui em Taboão da Serra temos feito a nossa parte, com campanhas, palestras, apitaço e marchas no combate a esse crime.
Quero fazer um apelo aos cidadãos e cidadãs taboanenses para se juntarem a nós e dizerem Não à Violência Contra à Mulher !
Quantos casos ocorrem por mês na cidade?
Casos de violência doméstica com registro de Boletim de Ocorrência na Delegacia da Mulher são em média 65 por mês, mas com certeza o número é muito maior.
Existe casa transitória no município?
Não existe casa abrigo ou transitória no município, quando temos que abrigar uma mulher e seus filhos, abrigamos em São Paulo.
Como denunciar abusos e violências contra a mulher?
A denuncia tem que ser feita na rede de proteção, de preferência nos Centros de Atendimento à Mulher e no 180, para que a pessoa receba o suporte de como oferecer ajuda.
Como a população pode ajudar?
A população precisa se engajar no combate a violência, com campanhas de conscientização, marchas, apitaços e outros.
Serviço
Coordenadoria dos Direitos da Mulher
Praça Miguel Ortega, 506 – Parque Assunção
Telefones: 4788-5378, 4788-5660 e 180