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A arte de educar

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Redação

03/05/2010 00:00

 Publicada originalmente em março de 2003 

Uma notícia passou despercebida nos jornais locais há umas duas semanas. A prefeitura comprou recentemente, através da Secretaria de Educação e Cultura, um aparelho de nome complicado, que instalado a um computador transforma todas as informações digitadas em estímulos sonoros. Bom, descomplicando a parte técnica: o programa permite que pessoas cegas possam usar normalmente um computador para trabalhar, se divertir e até mesmo navegar pela Internet.

O investimento da Prefeitura na aquisição do novo material foi de onze mil e quinhentos reais, uma verdadeira pechincha se olharmos pelos benefícios que está proporcionando para vários alunos da rede municipal que sofrem de algum tipo de deficiência visual. O aparelho já está funcionando a todo vapor na Escola Municipal de Ensino Fundamental Antonio Fenólio, no Pirajuçara.

No dia da entrega do aparelho, a diretora Carmem Fernandez preparou uma grande festa com os alunos da escola que, pra falar a verdade, tem uma metodologia de ensino diferente e bem inteligente. Ali, estudam juntos, lado a lado, crianças com algum tipo de deficiência e alunos sem deficiência alguma. É a chamada inclusão social.

Olha, particularmente eu não entendo nada desses métodos educacionais, mas sei que alguma coisa vibrante acontece naquela escola. Eles têm um coral com 32 crianças de 1ª a 7ª série e oito integrantes são cegos ou parcialmente cegos. Durante a breve apresentação feita em um improvisado palco no refeitório da escola, os convidados tiveram que se esforçar para segurar as lágrimas, porque a molecada arrepia quando solta a voz.

Acredito que a função da escola não seja apenas ensinar o Teorema de Pitágoras ou a morfologia das palavras. Hoje em dia a escola tem a dura responsabilidade de formar homens, de construir caráteres e de preparar a sociedade de amanhã. Essa filosofia de colocar na mesma sala crianças com deficiências para serem tratadas iguais a todos os outros dá um passo enorme para concretizar esse ideal.

Não sei porque, mas quando visitei a escola me veio à cabeça o filme argentino Kamchatka (ainda em cartaz) que conta à história de um casal perseguido pela ditadura militar argentina. Talvez seja porque o filme é contado da perspectiva de um dos filhos do casal ou então porque, tanto o filme quanto a garotada da escola, evocam a resistência e a esperança como as principais armas contra as atrocidades que às vezes somos submetidos.

Aprendi naquele dia que uns enxergam melhor com os olhos e outros acabam enxergando melhor com as mãos. Mas certas experiências corajosas, como a inclusão social, ajudam a enxergar com o coração. Carinho, amor, dedicação e respeito. A educação se faz assim. Esta é a lição que ficou.