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Luta, homem, mulher e Freud…
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Sabe aqueles dias que nem (me desculpe os professores de plantão pelo “que nem”) o porteiro do prédio lhe fala bom dia? Finge desconhecer a saudação educadamente criada para anunciar um falso dia que vem pela frente. Se o recusas é porque sabes que de bom, o dia não tem nada. Falso o dia que tudo acontece monota e repetidamente, sem uma simples boa notícia. A profunda e latente depressão se torna passiva de seus sentimentos. Quando se parece não ter fim o calvário, vibra o celular. Na ânsia de ser a pessoa amada para levantar-lhe do baque do falso dia, é apenas um aviso de que finda, mais uma vez, a carga da bateria.
Poderia ser um aviso sublime. Subliminar. Quase divino, de que os seus problemas de negatividade na conta-corrente se tornem saldo positivo. É difícil, mas todos os dias sua conta corrente lhe olha com tristeza e agonia por estar encravada no ópio do limite de cheque especial. Assim como você, ela está triste, pois sabe que num futuro breve, quando se encerrar os trinta dias do mês, receberá um “pseudo” gás, que durará apenas 24 ou 36 horas. Além de ser humilhada por viver na clandestinidade, ela é obrigada a pagar pedágio para os amigos IOF, os primos juros básicos e agora os novos irmãos trigêmeos chamados Custo, Efetivo, Total. Nessas horas, é claro, se você procurar o desabafo, sempre terá um espertinho e metido a “Zé Correto”, que acabara de ler um tosco, boçal e insignificante livro de auto-ajuda, dizendo: a vida é assim mesmo. Continue lutando que você supera os problemas, principalmente os financeiros.
A luta, já dizia Freud, não serve para nada. A não ser para mostrar o quanto você foi fraco e incipiente dentro de suas relações humanas. Pensemos que a guerra é fruto de uma invenção humana, sobretudo da figura masculina, para açoitar e macular a ira que possui das mulheres, que desde sua concepção, goza de benefícios jamais vividos pelo homem. Na lógica Freudiana, a arte da luta equivale àquilo que você quer SER com base naquilo que alguém já É. Traduzindo: inveja pura de seu semelhante. Exemplo, se valendo ainda do nosso amigo Freud, o homem só inventou a luta e a guerra para sangrar, assim como “sangra” as mulheres de trinta em trinta dias. Parece uma conversa psicótica, com requintes de psicopatia, mas é a pura verdade.
O homem tem inveja da mulher, pois sabe que seu “sangramento”, fatidicamente todo final de mês, é para usufruir de benefícios sórdidos da tal Tensão Pré-valorização do Meu Eu/Ego (conhecida no mundo pós-globalizado como TPM). Isso é tão verdade, que para não ficarem por baixo, os homens criaram as armas à semelhança de um pênis, como a flecha do arco, os fuzis, as bazucas… Longo, pontiagudo e ágil. É possível entender agora o porquê que a luta não vale de nada. E as mulheres, nada sentem ou falam? Na verdade elas também sentem. Inveja, por exemplo, de terem nascido sem pênis. E prova disso, é que passam metade de suas vidas criticando-os e dizendo que são horríveis. Como se fosse o tal cheque especial: terrível, mas difícil de viver sem.
Se alguém pedir para você lutar, pense duas vezes. A luta pode extrapolar um desejo reprimido e a inverossímil vontade violenta de possuir o bem alheio. Por isso que eu não lutei contra o falso dia ou contra o porteiro. Compreendo que por detrás daquela face fechada existem conflitos. Seja com a menstruação, a conta-corrente, o insucesso, a frustração. Afinal de contas, chego à conclusão que os obstáculos da tal vida não são para crescimento, mas para puro aborrecimento. E nesta hora nada melhor que manter o nosso espírito livre para viver sem problemas, até para superá-los com inteligência. De resto, continuo abdicando de lutar, como um operário, para ser “feliz”, sendo cada vez mais reprimido pela vida, pelo status e pelos homens de luta…